"Cooperativismo: uma via viável e vital". (Leocadio Lustosa)

Postado em Neutra

O empreendedorismo vem tomando corpo e cada vez mais espaço na sociedade contemporânea. Empreender significa “resolver-se a praticar alguma coisa laboriosa e difícil; tentar; delinear; deliberar-se a fazer”. Enfim, empreender é ter um compromisso com o seu meio e o seu tempo, vale dizer, comprometimento. “Sonho que se sonha só é apenas um sonho que se sonha só. Mas, sonho que se sonha juntos é realidade”. (Raul Seixas)

Assim, ao analisarmos o caos vivenciado pela humanidade nas suas relações inter-pessoais, negociais, de produção, de consumo, de valores, etc, em sentido amplo, que experimentamos neste começo de década, século e milênio, com a falência dos ditos sistemas ideológicos de esquerda e o estado pré-falimentar dos chamados sistemas de direita, nos parece que é chegado o momento de refletirmos sobre a possibilidade de novas alternativas que venham de encontro no sentido de equacionar a contento este insólito e nefasto panorama, como já nos foi alertado várias vezes por visionários humanistas, com a máxima: “não sois máquina, homens é que sois". Assim, humanizar a tecnologia nos parece ser de fundamental importância, senão capital, para a realização dos ideais que dignificam as gentes, o trabalho, a sobrevivência da nossa espécie e dos ecossistemas.

Diante deste quadro, nos acena uma nova bandeira vinda do berço do capitalismo, a qual convencionou-se designar de "Terceira Via", que a primeira vista para o ex-presidente Lula seria “acostamento”, levando-se em conta o processo de globalização de mercados, a onda privatizante, a queda das fronteiras através das comunicações, a revolução tecnológica, a crise financeira, econômica e social mundial, as mega-fusões de grupos econômicos gigantescos, a superpopulação mundial, o esgotamento dos potenciais energéticos e riquezas naturais, o atropelo ecológico, o desequilíbrio das parcerias que se agrupam em pobres e/ou ricos, com a divisão do mundo em blocos de primeiro a terceiro, enfim, o holocausto da fartura das bocas e da fome em contrapartida com a proliferação dos deserdados de toda ordem. Propondo, em última análise, domesticar a fera do capitalismo selvagem, eis que fomos jogados no circo globalizado, onde somos trapezistas, palhaços, pipoqueiros de migalhas e espectadores passivos.

Por outras leiras, o pragmatismo verificado no desenvolvimento das Ações Cooperativadas ou Associativismo Integrado, é uma possibilidade que vem ascender as esperanças e despertar possibilidades animadoras para os desesperados de fato ou emergentes ao juízo final, pois quem sacia a fome, tem sede de justiça social.

Conforme é sabido, "O Cooperativismo surgiu, historicamente como um sistema formal, porém simples, de organização de grupos sociais com objetivos e interesses comuns, estando o seu funcionamento amparado, basicamente, nos princípios de ajuda mútua e do controle democrático da organização dos seus membros. Daí, o caráter sui-generis deste tipo de organização, da qual os associados seriam proprietários e usuários".

A evolução histórica deste sistema não se deu, entretanto, à revelia da complexidade crescente da organização econômica e social das formações sociais em cujo contexto o movimento se inseriu e se expandiu. Antes ela se ajustou à dinâmica própria destas sociedades que, na maioria dos casos, testemunharam a consolidação do capitalismo como modo de produção dominante.

Assim, para sobreviver à competição que foi oferecida pela empresa privada capitalista, o cooperativismo passou a utilizar-se dos mesmos métodos organizacionais e operacionais de que se valiam tais empresas, com o intuito de atingir graus de eficiência econômica compatíveis com as situações de mercado que se defrontava.

O problema crucial é que na medida em que a organização cooperativa se expande enquanto empresa e consolida a sua sobrevivência em meio a uma ordem essencialmente competitiva, ela tende a se descaracterizar como cooperativa, porquanto inviabiliza um dos princípios básicos que a definem como tal, que é a participação efetiva e o controle democrático da organização por parte dos seus associados.

A solução para esse entrave, segundo sociólogos, seria a tomada de algumas medidas que poderiam ser acionadas, tanto pelo próprio movimento cooperativista, quanto pelo setor público, e que ofereceriam possibilidades variadas no sentido de assegurar um sistema mais satisfatório para o seu conjunto.

Dentre essas idéias, a institucionalização dentro do processo cooperativista, de um processo de crítica e autocrítica, controlado pelas bases do movimento, poderia levar a uma reavaliação constante das questões relevantes para o desenvolvimento de um sistema mais autêntico, com o envolvimento do associado para desenvolver uma consciência participativa, favorecendo a organização de outros núcleos para o debate livre e democrático; assim como o estímulo constante para os setores mais debilitados, principalmente creditícios com o objetivo de favorecer a organização e consolidação da Cooperativa como um todo.

Isso tudo, obviamente com respeito a biodiversidade e ao equilíbrio das relações, pois um negócio somente é bom, quando o é para todas as partes envolvidas, senão, como já foi dito, seremos sempre a iniciativa privada; privada de apoio, de estímulos, de incentivos, enfim, de perspectivas.

Diante desta realidade, em razão do Estado como está não mais responder satisfatoriamente às necessidades da sociedade moderna, prova disso é o crescente e importante segmento que representam as atitudes das ONG.s, considerando, também, que até o lixo se recicla, faz-se necessário a redimensão das funções deste mesmo ''Estado de Coisas". Por isso, a idéia do Associativismo Integrado, até como forma de governo e sistema econômico-social, que não é nova e nem minha, apenas propugnamos pela amplitude de escala da sua aplicação, com a comunhão de forças e a conjugação de esforços, pode ser o embrião para o desenvolvimento de uma sociedade mais justa, mais fraterna e mais humana, almejando qualidade de vida para todos, inclusive e principalmente dos excluídos, pois de tantos "arcaicos-ismos", estamos "a esmo".

Dito que as iniciativas cooperativistas estão proliferando de tal forma que é chegado o momento de se estender esta modalidade de sociedade pluralista de indivíduos para as classes menos favorecidas, proporcionando-lhes crédito e apoio logístico para a consecução dos seus projetos, tendo em conta a sua vocação natural com serviço a ser prestado bem como o nicho de mercado a ser atingido, como forma de integração social, econômica e de cidadania.

Este é um desafio a ser perseguido por todos os agentes de nossa sociedade, diferente do assistencialismo que tem se verificado, pois como disse o saudoso Luiz Gonzaga: “a esmola mata de vergonha ou vicia o cidadão”.

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Leocadio Lustosa – Advogado e Cidadão
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